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Esse caso aconteceu na Zona Leste de Sampa...
Nome: Paulo Alexandre Gomes
Desaparecimento: 16/05/06
Idade: hoje, teria 24 anos.
Características: Negro, estava em Liberdade Condicional desde 20/06/06.
Local dos fatos: Vila Santa Terezinha em Itaquera, local de alta vulnerabilidade social.
Hoje, quase um ano depois que meu irmão foi “desaparecido”, venho através dessas linhas, tentar expressar um pouco da dor de minha família.
Foram longos dias de muita incerteza. Pouco mais de 350 dias sem entender o que aconteceu na noite de 16/05/06. Noite em que meu irmão, saiu de casa às 21hrs, foi visto pela última vez às 23hrs e nunca mais voltou pra casa.
Naquela data, o comando da policia anunciava na mídia que a situação estava sobre controle.Tudo estava sendo feito para a garantir a manutenção da segurança pública.Na verdade, esse anúncio ocultava a verdadeira razão da “tranqüilidade” tão requerida por todos nós! De fato, tudo estava tão tranqüilo que hoje, sabe-se que nesta mesma noite de 16/05, 89 pessoas foram vítimas de arma de fogo na Grande São Paulo. Muitas delas, mortas em “possíveis confrontos”. Naquela data, tivemos o maior pico de mortes entre os dias 12 e 20/05.
Sabe-se que infelizmente, algumas viaturas da força tática e da rota foram às ruas em busca dos escolhidos, aqueles que tinham o perfil procurado naqueles dias, negros, pobres, ex-detentos e tatuados. Eles (policias) queriam ir à desforra, crimininalizaram a pobreza, destroçaram as periferias.
O mais triste disso tudo é saber que meu querido irmão tinha exatamente este perfil.
O que nós intriga é o fato que, na mesma data, policiais de uma viatura da Rota agrediram dois rapazes nas imediações de nossa casa, há metros de onde meu irmão foi visto pela última vez. Infelizmente, como já esperado, não conseguimos ainda provar que as situações possam ter alguma relação com seu desaparecimento.
Desde os primeiros dias, quando ouvimos e registramos todos os depoimentos dos amigos, das pessoas que o viram naquela noite, pudemos identificar grandes possibilidades de envolvimento de “policias” covardes em seu desaparecimento e, sendo assim, na verdade, sua desaparição.
Ao longo desses meses, sentimos um imenso vazio, uma lacuna que para mim, Francilene, começou lá na noite do dia das mães 14/05, quando ele me deu tchau e sorriu! Essa lacuna está aberta, só nós restou muita saudade, incerteza e revolta. Revolta por termos sido tratados como invisíveis, sem sermos ouvidos pelo Estado. Por perceber que para alguns de seus representantes (delegados, investigadores e afins) meu irmão era mais um bandido, passível de ser eliminado. Afinal, quem se interessa em descobrir o paradeiro de um bandido?
Hoje, penso que a pena de morte no Brasil só não é legalizada, pois, principalmente nas periferias, locais abandonados pelo Estado, ela é executada fora dos marcos da lei. Determinada e executada pelas mãos de quem deveria nos proteger. Isso, a torna mais perversa ainda!
Com esse manifesto e os inúmeros e-mails e cartas que percorrem as comissões de direito humanos, queremos dizer que continuaremos tornando público o sofrimento de nossa família. Exigindo que se faça justiça. Nossa condição, não é só nossa, individual, é coletiva, é social.
Ass: Família de Paulo Alexandre Gomes 10/05/2007
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